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... O teu silêncio é um leque-
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...
Fernando Pessoa

EM LOUVOR DO FOGO
Um dia chega
de uma extrema doçura:
tudo arde.
Arde a luz
nos vidros da ternura.
As aves,
no branco
labirinto da cal.
As palavras ardem,
e a púrpura das naves.
O vento,
onde tenho casa
à beira do outono.
O limoeiro, as colinas.
Tudo arde
na extrema e lenta
doçura da tarde.
Eugénio de Andrade
"Existem pessoas que, como a cana, mesmo posta na moenda, reduzida a bagaço, só sabem dar doçura."
D. Helder Câmara

Me perguntaram pra quem é que eu escrevo
Não respondi porque guardar segredo eu devo
Só digo que ela é o meu maior enlevo
Guardada a sete chaves em um cofre
Um doce amor que enlouquece e me consome
Tenho por ela um sentimento de amor enorme
Hoje eu só vivo em função desse nome
Porque só por ela é que o meu coração sofre.
Ela é o designio do destinho imperador
Tem a sutileza da petala sedosa de uma flor
E é como o sol que tem brilho e calor
É uma princesa disfarçada de estrela
O meu coração vive fora do compasso
Embriagado pelo calor do seu abraço
Está inserida em cada verso que eu faço
Porque só atraves da poesia eu posso ve-la.
Os labios dela supera a doçura do mel
É mais valiosa que ouro de um troféu
Na presença dela eu faço uma idéia do céu
É uma estrela,uma flor,uma princesa uma fada
É a musa mais meiga que todo poeta quer
Ela é tudo isso e bem mais que tudo que eu disser
E de todo universo ela é a mais linda mulher
Por ela minha alma confessa mais mais apaixonada.
Pedro Nogueira
No dia em que a flor de lótus desabrochou,
A minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia, e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
De um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim,
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
Tinha desabrochado no fundo do meu próprio coração.
Rabindranath Tagore
Ah, por favor, doçura, doçura, doçura!
Acalma esses arroubos febris, minha bela.
Mesmo em grandes folguedos, a amante só deve
Mostrar o abandono calmo da irmã pura.
Sê lânguida, adormece-me com os teus afagos,
Iguais aos teus suspiros e ao olhar que embala.
O abraço do ciúme, o espasmo impaciente
Não valem um só beijo, mesmo quando mente!
Mas dizes-me, criança, em teu coração de ouro
A paixão mais selvagem toca o seu clarim!...
Deixa-a trombetear à vontade, a impostora!
Chega essa testa à minha, a mão também, assim,
E faz-me juramentos pra amanhã quebrares,
Chorando até ser dia, impetuosa amada!
Paul Verlaine, in "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

O Poema jorra pétalas brancas
Rosas brancas, pálidas de espanto
ao vento, asas arremessadas, livres
pelo ar.
O Poema surpreendente doçura
mistura mel e terra, fruta-do-conde
Laranja craveira, sorva gomo a gomo
O Poema brota morno, doido
aos borbotões as lágrimas de gozo
inundam as mãos, ávidas mãos
ivy menon

Doçura de estar só quando a alma torce as mãos!
— Oh! doçura que tu, Silêncio, unicamente
sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,
ao lento perpassar destes instantes vãos!
Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!
De amar e de evocar, pelo esplendor secreto
e pálido de uma hora em que ao Seu lábio inquieto
floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!
E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!
E os candelabros que, olvidados, se apagaram
E a saudade, acordando as vozes que calaram!
Doçura de estar só quando finda o festim!
Doçura de estar só, calado e sem ninguém!
Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,
sob o fulgor da noite aureolada de opala
que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustém!
Doçura de estar sós Silêncio e solidão!
Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,
dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!
Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!
Eduardo Guimarães
(A Divina Quimera, 1916)