quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010





























... O teu silêncio é um leque-
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Fernando Pessoa

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Na extrema e lenta doçura da tarde













EM LOUVOR DO FOGO


Um dia chega
de uma extrema doçura:
tudo arde.

Arde a luz
nos vidros da ternura.

As aves,
no branco
labirinto da cal.

As palavras ardem,
e a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa
à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

na extrema e lenta
doçura da tarde.

Eugénio de Andrade





















"Existem pessoas que, como a cana, mesmo posta na moenda, reduzida a bagaço, só sabem dar doçura."
D. Helder Câmara

Supera a Doçura do Mel























Me perguntaram pra quem é que eu escrevo
Não respondi porque guardar segredo eu devo
Só digo que ela é o meu maior enlevo
Guardada a sete chaves em um cofre
Um doce amor que enlouquece e me consome
Tenho por ela um sentimento de amor enorme
Hoje eu só vivo em função desse nome
Porque só por ela é que o meu coração sofre.

Ela é o designio do destinho imperador
Tem a sutileza da petala sedosa de uma flor
E é como o sol que tem brilho e calor
É uma princesa disfarçada de estrela
O meu coração vive fora do compasso
Embriagado pelo calor do seu abraço
Está inserida em cada verso que eu faço
Porque só atraves da poesia eu posso ve-la.

Os labios dela supera a doçura do mel
É mais valiosa que ouro de um troféu
Na presença dela eu faço uma idéia do céu
É uma estrela,uma flor,uma princesa uma fada
É a musa mais meiga que todo poeta quer
Ela é tudo isso e bem mais que tudo que eu disser
E de todo universo ela é a mais linda mulher
Por ela minha alma confessa mais mais apaixonada.

Pedro Nogueira
























No dia em que a flor de lótus desabrochou,
A minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia, e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
De um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim,
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
Tinha desabrochado no fundo do meu próprio coração.

Rabindranath Tagore

Lassidão
























Ah, por favor, doçura, doçura, doçura!
Acalma esses arroubos febris, minha bela.
Mesmo em grandes folguedos, a amante só deve
Mostrar o abandono calmo da irmã pura.

Sê lânguida, adormece-me com os teus afagos,
Iguais aos teus suspiros e ao olhar que embala.
O abraço do ciúme, o espasmo impaciente
Não valem um só beijo, mesmo quando mente!

Mas dizes-me, criança, em teu coração de ouro
A paixão mais selvagem toca o seu clarim!...
Deixa-a trombetear à vontade, a impostora!

Chega essa testa à minha, a mão também, assim,
E faz-me juramentos pra amanhã quebrares,
Chorando até ser dia, impetuosa amada!

Paul Verlaine, in "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

O Poema

















O Poema jorra pétalas brancas
Rosas brancas, pálidas de espanto
ao vento, asas arremessadas, livres
pelo ar.

O Poema surpreendente doçura
mistura mel e terra, fruta-do-conde
Laranja craveira, sorva gomo a gomo

O Poema brota morno, doido
aos borbotões as lágrimas de gozo
inundam as mãos, ávidas mãos

ivy menon

Doçura de Estar Só...
















Doçura de estar só quando a alma torce as mãos!

— Oh! doçura que tu, Silêncio, unicamente

sabes dar a quem sonha e sofre em ser o Ausente,

ao lento perpassar destes instantes vãos!



Doçura de estar só quando alguém pensa em nós!

De amar e de evocar, pelo esplendor secreto

e pálido de uma hora em que ao Seu lábio inquieto

floresce, como um lírio estranho, a Sua voz!



E os lustres de cristal! E as teclas de marfim!

E os candelabros que, olvidados, se apagaram

E a saudade, acordando as vozes que calaram!

Doçura de estar só quando finda o festim!



Doçura de estar só, calado e sem ninguém!

Dolência de um murmúrio em flor que a sombra exala,

sob o fulgor da noite aureolada de opala

que uma urna de astros de ouro ao seio azul sustém!



Doçura de estar sós Silêncio e solidão!

Ó fantasma que vens do sonho e do abandono,

dá-me que eu durma ao pé de ti do mesmo sono!

Fecha entre as tuas mãos as minhas mãos de irmão!


Eduardo Guimarães

(A Divina Quimera, 1916)